“A Procissão das Velas” (…talvez em Águas Frias) - Mário Silva (IA) … e a estória
“A Procissão das Velas” (…talvez em Águas Frias)
Mário Silva (IA)
… e a estória

A pintura digital de Mário Silva, intitulada "A Procissão das Velas", é uma obra de arte que evoca uma atmosfera noturna e mística, com uma clara influência do estilo de Vincent van Gogh, nomeadamente de "A Noite Estrelada".
A paleta de cores é dominada por tons profundos de azul e preto no céu noturno, contrastando vividamente com os laranjas, amarelos e vermelhos quentes que emanam das velas e das construções iluminadas.
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Uma Estória: A Luz da Fé em Águas Frias
Na pequena aldeia transmontana de Águas Frias, aninhada entre montes verdejantes e envolta no silêncio profundo das noites de verão, a procissão de Nossa Senhora da Saúde era o coração pulsante da sua fé e comunidade.
Em 08 de agosto, o ar frio que batiza a aldeia misturava-se com o calor das velas e dos corações devotos.
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Dona Rosa, com os seus oitenta e muitos anos, preparava a sua vela com o mesmo esmero de sempre.
Os seus dedos calejados pelo trabalho na terra acariciavam a cera, recordando as inúmeras procissões em que participara desde criança.
Para ela, a procissão não era apenas um ritual, mas uma ponte entre o passado e o presente, um elo inquebrável com todos os que já tinham caminhado aquelas ruas de pedra.
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Ao cair da noite, as ruas de Águas Frias, habitualmente escuras, começavam a ganhar vida.
Primeiro as crianças, com os seus olhos curiosos e as velas ainda incertas nas mãos pequenas, seguiam os pais e avós em direção à igreja.
Depois, a massa da comunidade, dos mais novos aos mais velhos, dos lavradores aos pastores, todos se uniam num só corpo, iluminado apenas pelo rasto dourado das velas.
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O sino da igreja, com o seu toque solene, anunciou o início.
A voz do padre ecoou, abençoando a congregação, e então, em fila, os fiéis começaram a marcha.
A chama de cada vela, por mais pequena que fosse, contribuía para uma luz coletiva que afastava as sombras da noite e as angústias do dia a dia.
A luz dançava nos rostos dos presentes, revelando sorrisos, lágrimas silenciosas e um brilho de esperança nos olhos.
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Tiago, um jovem que havia regressado à aldeia depois de anos na cidade, sentia-se estranhamente emocionado.
Ele sempre vira a procissão como uma velha tradição, mas naquela noite, com a chama da sua vela a bruxulear ao ritmo da brisa, sentia algo mais profundo.
Via nos rostos à sua volta a história de Águas Frias, a força da sua gente, a resiliência de quem enfrentava invernos rigorosos e verões secos.
Aquele mar de luzes na escuridão não era apenas um ato de fé; era a prova viva de uma comunidade unida, de um sentido de pertença que ele havia esquecido.
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As orações sussurradas e os cânticos lentos, carregados de devoção, flutuavam no ar.
No topo da colina, a lua cheia, como um farol celestial, observava a procissão que serpenteava pelas ruas da aldeia, as chamas refletindo-se nas paredes de pedra das casas.
Cada vela, uma prece; cada passo, uma promessa.
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Ao regressar ao largo da igreja, com o corpo cansado mas a alma leve, Tiago olhou para os rostos iluminados à sua volta.
Não eram apenas vizinhos; eram a sua Gente.
E ao ver a chama da vela de Dona Rosa, firme e constante, percebeu que, naquela noite, a escuridão de Águas Frias não era de solidão, mas de uma comunidade que se iluminava com a fé e a união, ano após ano, geração após geração.
A procissão das velas era a alma de Águas Frias, uma lembrança viva de que, mesmo nas noites mais escuras, a luz da fé e da comunidade nunca se apaga.
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Texto & Pintura digital: ©MárioSilva
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