"Olhando a Aldeia numa noite invernosa ao luar" e estória - Mário Silva (IA)
"Olhando a Aldeia numa noite invernosa ao luar" e estória
Mário Silva (IA)

A pintura digital de Mário Silva é uma obra de forte teor emocional e atmosférico.
A imagem é enquadrada por uma janela, cujos caixilhos robustos e o parapeito são iluminados por uma luz interior quente e alaranjada, que contrasta dramaticamente com o exterior.
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O ponto focal da cena exterior é uma aldeia aninhada no vale, vista sob a luz intensa de uma lua cheia que domina um céu noturno profundo e agitado.
A técnica utilizada remete ao Impressionismo e ao Expressionismo, com pinceladas grossas e texturizadas, especialmente no céu e nas montanhas, criando uma sensação de frio, vento e movimento.
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As casas da aldeia, com paredes brancas e telhados de tons alaranjados, são iluminadas pela lua fria, conferindo-lhes um brilho azulado.
A torre de uma igreja ou campanário destaca-se no centro da aldeia.
Em primeiro plano, de costas para o observador, está a silhueta escura de uma pessoa (um homem, pelo seu porte) olhando fixamente para a aldeia lá fora, imersa na escuridão e envolvida pela luz quente da divisão interior.
A paleta de cores é dominada pelo contraste entre os azuis profundos e os laranjas quentes, acentuando a sensação de introspeção e isolamento.
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A Estória: "Olhando a Aldeia numa Noite Invernosa ao Luar"
O Regresso de Abel
O calor da lareira crepitava na pequena casa de pedra de Abel, mas o homem mal o sentia.
Estava debruçado sobre o parapeito da janela, um refúgio de luz dourada num mar de escuridão.
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Abel tinha regressado à aldeia, Fonte Arcada, depois de vinte anos a trabalhar na cidade grande – em França e depois em Lisboa.
Vinte anos que lhe tinham dado mais calos nas mãos do que o frio nas entranhas.
Chegou ao anoitecer.
Agora, de pé na casa vazia dos pais, olhava para a vida que deixara para trás.
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Lá fora, a aldeia dormia sob um manto de luar prateado.
A lua cheia, um disco pálido e soberbo, pairava sobre a torre da igreja, Santa Maria de Fonte Arcada, o marco mais alto e teimoso do lugar.
O céu, pesado e turbulento, parecia pintado a golpes de espátula por uma mão zangada, refletindo o vento gelado que chicoteava as encostas.
A luz quente que o envolvia era a única memória tátil de conforto.
Era a luz do azeite, do pão caseiro, da voz suave da mãe a rezar.
Era a luz que não tinha levado consigo.
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Quando Abel partiu, nos fins da década de 90, a aldeia era vibrante, cheia de rapazes com sonhos e raparigas com risos fáceis.
Agora, a distância e o luar tornavam-na pequena, quase uma maquete.
Cada casa branca parecia um pequeno caixão, frio e silencioso, com os telhados de cor de ferrugem a brilhar como feridas antigas.
Ele procurava, na mancha branca sob a torre, a casa de Aurora.
A Aurora, com quem tinha prometido casar no verão seguinte à sua partida.
A Aurora, cujo sorriso ele tinha trocado pelo cheiro a cimento e o barulho dos carros.
Ela não o esperou.
Passados cinco anos, casou com o carpinteiro da aldeia vizinha e partiu.
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Abel esfregou as mãos, sentindo a rugosidade das luvas que usava para descarregar a carrinha.
Não havia rancor, apenas um peso que o forçava a olhar fixamente.
Ele percebia que, embora o seu corpo tivesse regressado, a sua alma, a parte que pertencia a Fonte Arcada, tinha ficado presa naquele inverno distante, à espera da Primavera.
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O frio da janela penetrava pela sua camisa.
Lá fora, o vento uivava, mas a aldeia permanecia imóvel.
Finalmente, Abel afastou-se do parapeito, fechando os olhos por um momento.
O calor da lareira parecia agora suficiente.
Ele sabia que a vida que procurava não estava lá fora, sob o manto de gelo e luar, mas dentro dele, na difícil tarefa de reacender a sua própria luz, naquela casa vazia, na única aldeia a que chamaria sempre lar.
O regresso, ele percebeu, era apenas o primeiro passo.
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Texto & Pintura digital: ©MárioSilva
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